O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e a savana mais biodiversa do planeta, representando 1 terço da biodiversidade do país e apresentando diversas fitofisionomias incluindo áreas campestres, savânicas e florestais. É também nosso berço das águas, abrigando as nascentes de oito das 12 bacias hidrográficas brasileiras.

Mas, infelizmente, a vegetação nativa do Cerrado está desaparecendo mais rápido do que qualquer outra no mundo: 50% do bioma já foi convertido para dar lugar à produção agropecuária[1], aprofundando a crise ambiental e a desigualdade social e econômica do território. O bioma ainda enfrenta outros desafios como a pouca valorização e o desconhecimento sobre a fundamental importância dos ecossistemas não florestais como campos e savanas para a preservação da biodiversidade e a segurança hídrica.
Dado este cenário, fica evidente a importância de uma rede colaborativa e multissetorial em prol de sua restauração, fortalecendo e dando escala às iniciativas já existentes e promovendo novas frentes de atuação, sempre respeitando a diversidade do Cerrado, as comunidades locais e seus arranjos regionais. Além do contexto ambiental, a restauração do Cerrado também é um promissor vetor de geração de renda para pequenos agricultores, povos e comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais, além de colaborar com o crescimento econômico para todo o Brasil.
A ARATICUM
A Araticum, Articulação pela Restauração do Cerrado, é uma rede colaborativa que atua para promover e monitorar a restauração ecológica do Cerrado.
Nossa visão de transformação é a de um Cerrado conservado e restaurado, contribuindo para a justiça climática, a promoção da sociobiodiversidade, e a manutenção da água nos territórios e do clima no planeta.
Propósito
Em resposta às crescentes ameaças ao Cerrado, a Araticum surgiu em 2020 com o ambicioso objetivo de promover a restauração de 2 milhões de hectares do bioma até 2030, como contribuição do Cerrado aos compromissos brasileiros com impacto local e global. Reconhecemos que a restauração é parte de um conjunto de soluções para lidar com a degradação da terra, desmatamento e mudanças climáticas. Por isso, trabalhamos para incentivar práticas de manejo sustentável e destacar as contribuições vitais dos ecossistemas nativos para a sociobiodiversidade, a regulação hídrica e o estoque e sequestro de carbono.
Acima de tudo, a Araticum busca ativamente incluir no ciclo da restauração os Povos Indígenas e Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais e Agricultores Familiares que habitam o Cerrado, integrando conhecimentos tradicionais e inovação local à ciência formal para desenhar e implantar práticas de restauração apropriadas para o Cerrado. Defendemos a restauração inclusiva, com a participação dessas pessoas nos espaços de decisão e em diversos elos da cadeia da restauração, para geração de renda e empregos. Assim, contribuímos para a diminuição das desigualdades econômicas e sociais que persistem na abrangência do bioma.
Ter um movimento de restauração como a Araticum como espaço de articulação e integração destes atores da cadeia da restauração promove a conexão e a troca de experiências, aumentando a capacidade das organizações de base comunitária, a geração de conhecimento, e a incidência em políticas públicas voltadas para a conservação e restauração do bioma.
Governança
O núcleo gestor Araticum é formado por uma Coordenação e quatro Grupos de Trabalho, apoiados pelo Conselho Consultivo e por uma secretaria executiva.
- Coordenação: com participação da sociedade civil, pesquisa, academia, setor privado e governo, é composta por Agroicone, Coocrearp, Embrapa, ICMBIO, Rede de Sementes do Cerrado, Semeia Cerrado e WWF-Brasil. Responsável por estabelecer normas, princípios e políticas para a gestão e operação da rede.
- Conselho Consultivo: representando movimentos comunitários, sociedade civil, setor de pesquisa, setor privado e governo: MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais sem Terra), Instituto Humanize, Embrapa Cerrados, Suzano S.A. e MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas). Responsável por apoiar a Coordenação a desenvolver e implementar o plano estratégico.
- Grupos de Trabalhos e Forças-tarefa: Conhecimento; Fortalecimento das Organizações; Inteligência Territorial; e Oportunidades e Políticas Públicas. Responsáveis por criar soluções para os desafios da restauração em larga escala do Cerrado alinhadas ao Planejamento Estratégico. Os GTs promovem reuniões e forças-tarefa para o desenvolvimento de produtos como oficinas, guias, estudos e publicações.
- Secretaria executiva: duas pessoas fixas contratadas pela Araticum – secretária e analista socioambiental. Responsáveis pela articulação de atividades, pela comunicação com os membros, e pela governança da organização.
- Membros: Hoje, a Araticum conta com mais de 420 membros individuais representando +180 organizações.
Teoria da Mudança e Planejamento Estratégico
Em um processo colaborativo realizado em 2025 com o apoio do iCS, avaliamos os resultados de nosso Planejamento Estratégico 2022-2025, e elaboramos a reformulação de Teoria da Mudança e novo PE para o triênio 2026-2028.
Neste PE, agregamos recursos e experiências diversificados essenciais para alcançar os objetivos de três eixos estratégicos:

Eixo de Produção e Disseminação de Conhecimento
- Planejamento e monitoramento territorial para geração e tratamento de dados estratégicos
- Gerar conhecimento para nutrir a formulação de Planos e Políticas
- Aperfeiçoar comunicação voltada à educação, sensibilização e mobilização da sociedade
Eixo de Inclusão e Fortalecimento das Organizações
- Contribuir para o aprimoramento da governança e condições habilitantes nos territórios
- Fomentar formações e uso de novas tecnologias, com foco em comunidades
- Ampliar e facilitar o acesso à recursos, políticas públicas e direitos
Eixo de Articulação e Incidência
- Organizar projetos de restauração multiatores
- Apoiar e participar da construção de políticas públicas
- Atrair, qualificar e mobilizar recursos para restauração e conservação do Cerrado
- Estabelecer comunicação estratégica com atores de influência
Visão integrada e seus resultados
A Teoria da Mudança da Araticum, viabilizada pelo apoio de organizações parceiras, promove resultados consistentes, como os elencados a seguir:
– Incidência na CONAVEG, NAT e PLANAVEG 2025-2028
Em dezembro de 2024, o governo brasileiro divulgou a nova versão do PLANAVEG – Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa 2025-2028, que define diretrizes para acelerar e dar escala à restauração no Brasil. A Araticum é parte fundamental da construção deste ambicioso plano, como parte do Conselho Consultivo e das câmaras científicas temáticas que forjaram programas e diretrizes específicos para a realidade da restauração no Cerrado.
Em 2025, passamos a integrar o Núcleo de Articulação Territorial, como Núcleo de Articulação Biomática, e estamos aprofundando iniciativas como a formulação dos Territórios Estratégicos de Restauração do Cerrado.
– Inteligência Territorial e a Plataforma Araticum
Hoje, organizações membro da Araticum estão implementando projetos de restauração em diversas áreas prioritárias, como corredores de biodiversidade, unidades de conservação, territórios de povos e comunidades tradicionais, assentamentos da reforma agrária e propriedades privadas no Brasil, para servir como modelos e unidades demonstrativas, estimulando a expansão de ações de restauração em larga escala no Cerrado. Atualmente, a Araticum está em campanha de mobilização de áreas para atualizar o mapeamento dos já mais de 15 mil hectares em processo de restauração. As informações destas áreas são monitoradas pela Plataforma Araticum, desenvolvida em parceria com o Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig) da Universidade Federal de Goiás e integrada ao Observatório da Restauração.
– Diagnóstico das organizações comunitárias
O Diagnóstico Socioambiental foi desenvolvido juntamente a 07 organizações comunitárias coletoras de sementes, presentes em 06 estados do Cerrado (GO, DF, MG, BA, TO e PA) em 2025, com aproximadamente 150 respondentes. Dentre as organizações que participaram do diagnóstico, 100% atuam na coleta e beneficiamento de sementes; 71% também comercializam e 57% executam ou gerem projetos. A publicação final encontra-se em diagramação – para conhecer os resultados preliminares, acesse: araticum.org.br/diagnostico.
– Boas Práticas da Restauração Inclusiva
A publicação “Boas Práticas para a Restauração Ecológica Inclusiva” foi elaborada pela Araticum, seus membros e parceiros a partir de reunião geral na SOBRE2024, oficinas virtuais e diversas discussões no decorrer de 2025, e lançada oficialmente me fevereiro de 2026.
Momentos de escuta e trocas poderosas, com mais de 70 representantes de organizações que atuam direta ou indiretamente na cadeia de restauração de base comunitária, foram etapas importantes na construção deste guia para identificar oportunidades de promover a inclusão socioprodutiva em toda a Cadeia da Restauração do Cerrado.
[1] MapBiomas. (2023). MapBiomas Cerrado Coleção 8 de Mapas Anuais de Cobertura e Uso do Solo do Bioma Cerrado. Disponível em: https://brasil.mapbiomas.org/mapbiomas-cerrado/