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Oficina “A Restauração que Queremos para a Chapada dos Veadeiros”

Em 09 e 10 de junho, a Araticum promoveu, na UNB Cerrado, a oficina “A Restauração que Queremos para a Chapada dos Veadeiros”.

Com a participação de mais de 80 atores da região, entre quilombolas, agricultores familiares, coletores de sementes, organizações da sociedade civil, secretarias de meio ambiente e entes do governo federal, o objetivo da oficina foi co-construir uma visão comum das iniciativas de restauração na Chapada dos Veadeiros, de modo a ampliar os impactos positivos na paisagem.

Confira os destaques da mesa de abertura:

Thiago Belote (diretor de Florestas da Secretaria Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do MMA) ressaltou a Chapada dos Veadeiros como um território estratégico para a agenda de restauração, um modelo de restauração inteligente e inclusiva. Ele anunciou que durante a Semana Nacional do Meio Ambiente, o ministério lançaria uma portaria reconhecendo formalmente os Territórios da Restauração. O objetivo dessa iniciativa seria identificar e reconhecer territórios onde a restauração já acontece, independentemente da escala (20 ha ou 2000 ha/ano), e avaliar seu nível de maturidade. Tal identificação permitirá o direcionamento mais eficaz de políticas, projetos e recursos. Segundo Thiago, esse reconhecimento não é uma imposição de cima (do governo), mas uma legitimação das iniciativas locais (de baixo para cima).

Neste contexto, o diretor mencionou como exemplo de sucesso a experiência da Associação Cerrado de Pé pois, combina impacto positivo na comunidade (restauração feita com pessoas) com alta efetividade ecológica. Concluindo, ele reforçou a importância das pessoas estarem no centro do processo para viabilizar que a restauração ganhe escala. Também reconheceu o potencial da restauração como uma agenda de desenvolvimento que transforma vidas.

Carol Sacramento (Secretária Executiva da Araticum) destacou o compromisso de escuta da Araticum
para a oficina: “não estamos aqui para trazer algo, estamos aqui para ouvir”. Relembrou que a definição da Chapada dos Veadeiros como território estratégico não foi arbitrária, e sim resultado de um movimento de escuta entre os membros da Araticum iniciado no ano anterior, cujos resultados fundamentaram a nova portaria do MMA.

Como expectativa dessa oportunidade, Carol revelou o entusiasmo da equipe pela construção coletiva de um plano de ação para a restauração do território, no entanto, reconheceu que o documento não precisaria sair pronto do encontro; as ideias convergentes e divergentes seriam acolhidas e o plano passaria por outras validações para se tornar concreto e efetivo. Na visão da Araticum, a Chapada seria o primeiro de muitos territórios estratégicos, e o processo construído ali inspiraria outras regiões do Cerrado. Ela encerrou convidando todos a fazerem parte da Araticum para garantir que todas as vozes (concordantes ou discordantes) sejam ouvidas.

Emiverton de Sousa Fernandes (AQK e ACP), mais conhecido como Ni, relatou a evolução do trabalho de coleta de sementes, que começou com apenas cinco coletores e hoje conta com 240 pessoas. Ele destacou o impacto transformador dessa atividade como fonte de renda, permitindo que famílias construam casas, comprassem eletrodomésticos (geladeiras) e melhorem sua qualidade de vida.

Jamile Mendes de Souza (secretária de meio ambiente da SEMA Alto Paraíso) descreveu o desafio de gerenciar um território complexo (reconhecido como hotspot de biodiversidade, berço das águas, com forte presença de UCs – Parque Nacional, Parque Estadual e APA). Ela pontuou as dificuldades de conciliar preservação ambiental e desenvolvimento, lidando com limitações de recursos financeiros e humanos. O desafio atual, segundo ela, são as ocupações irregulares no município (onde 86% da vegetação nativa ainda se encontra preservada), geradas pelo desejo das pessoas de viverem nesse paraíso. Jamile enfatizou a necessidade de diálogo, escuta (participação em conselhos como o Condema) e a importância de parcerias com outras entidades.

Mário Oliveira Neto (CBC/ICMBio) relembrou o histórico da restauração na região, que começou no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Inicialmente técnica (gestão + ciência), a iniciativa só ganhou escala e sucesso quando a comunidade passou a fazer parte da iniciativa, por meio do engajamento de coletores, agricultores e povos Kalungas. A experiência conjunta com a Associação Cerrado de Pé propiciou a compreensão de que uma iniciativa realizada por agentes externos não gera pertencimento. Também desmistificou a ideia acadêmica de que restaurar o Cerrado era extremamente difícil.

Mário defendeu a necessidade de virar a chave e parar de ver a restauração como perda de área agricultável, mas como ganho: água, renda, construção de infraestrutura (casas/banheiros) e até Sistemas Agroflorestais (onde adequado). A restauração, assim como as novas políticas do ICMBio, deve colocar as pessoas no centro, respeitando suas diretrizes e modos de vida.

Nathali Santos (FUNAI) destacou a riqueza sociocultural da região, mencionando o povo Avá-Canoeiro (de contato recente – 1983 – e residente em um território de 31.000 hectares). Ela compartilhou como a FUNAI tem aprendido com os povos indígenas e parceiros para avançar na agenda de restauração. Iniciativas incluem: a elaboração do Programa Indígena de Restauração Ecológica (o principal instrumento do Planaveg para esses territórios, a ser finalizado no ano); a realização do Encontro Indígena de Restauração Ecológica (para dar visibilidade e articular ações); e a formação de multiplicadores indígenas, construída pedagogicamente com eles. Natalie concluiu ressaltando que, para esses povos, a restauração não é apenas ambiental ou ecológica; ela é profundamente social, cultural e espiritual. A restauração efetiva requer a valorização da visão de mundo das comunidades que vivem, manejam e protegem a biodiversidade há gerações, envolvendo mulheres, crianças e
anciãos.

Durante os dois dias de realização, a oficina destacou-se por uma dinâmica altamente participativa e horizontal, utilizando metodologias como o Espaço Aberto para que os presentes construíssem mapas e teias de conexão em estações temáticas. O ambiente reuniu uma rica diversidade de perspectivas (incluindo poder público (federal, estadual, municipal), ONGs, instituições de pesquisa, produtores rurais, financiadores e comunidades tradicionais), promovendo escuta ativa, aprendizado mútuo e a quebra de pré-julgamentos.

Em breve, compartilharemos os resultados e próximos passos da iniciativa.

A oficina contou com o apoio do GEF Áreas Privadas, do Instituto Clima e Sociedade – iCS, do Instituto humanize e do WWF-Brasil.

Fotos: Belica Artes

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